echos & espheras

espheras espalhadas memórias em eco

20 de Fevereiro de 2012

first meetings


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We celebrated every moment
Of our meetings as epiphanies,
Just we two in all the world.
Bolder, lighter than a bird’s wing,
You hurtled like vertigo
Down the stairs, leading
Through moist lilac to your realm
Beyond the mirror.

When night fell, grace was given me,
The sanctuary gates were opened,
Shining in the darkness
Nakedness bowed slowly;
Waking up, I said:
‘God bless you!’, knowing it
To be daring: you slept,
The lilac leaned towards you from the table
To touch your eyelids with its universal blue,
Those eyelids brushed with blue
Were peaceful, and your hand was warm.

And in the crystal I saw pulsing rivers,
Smoke-wreathed hills, and glimmering seas;
Holding in your palm that crystal sphere,
You slumbered on the throne,
And – God be praised! – you belonged to me.
Awaking, you transformed
The humdrum dictionary of humans
Till speech was full and running over
With resounding strength, and the word you
Revealed its new meaning: it meant king.
Everything in the world was different,
Even the simplest things – the jug, the basin -
When stratified and solid water
Stood between us, like a guard.

We were led to who knows where.
Before us opened up, in mirage,
Towns constructed out of wonder,
Mint leaves spread themselves beneath our feet,
Birds came on the journey with us,
Fish leapt in greeting from the river,
And the sky unfurled above…

While behind us all the time went fate,
A madman brandishing a razor.



Arseni Tarkovski



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18 de Fevereiro de 2012

11

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fotografia b. berenika


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Reconheces esta água para onde cais?
Água em estado redondo lívido -
crispam-lhe as espumas as plumas mornas no colchão.
Por baixo de ti corre um rendilhado de luas maternas.
Nenhuma propriedade básica se aplica:
incolor indolor inodoro não é
o corpo para onde cais.

Ei-lo - sem qualquer reminiscência das fábulas -
o peixe que não vai para lugar nenhum:
primeiro disse que não sabia nadar
depois disse que não cabia na água -
limpa os beiços
varre as praias até ao fundo do cobertor -
e apesar disso traz ao pescoço
todas as conchas
todas as coxas celebradas.


Catarina Nunes de Almeida



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8 de Fevereiro de 2012

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fotografia gilbert garcin
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Tudo o que ficou por dizer
porque de repente
era a hora do combóio
ou um telefone longínquo tocava
ou um qualquer acidente aconteceu.

Tudo o que ficou por dizer
porque o pudor calou a voz
porque um orgulho surdo a interrompeu
porque as palavras talvez já nem chegassem
ou era tarde
e o cansaço aos poucos foi levando a melhor.

Tudo o que ficou por dizer
porque a dor doía em demasia
e era necessário que as palavras
fossem capazes de ser claras como o ar
porque as palavras traem
como gumes de facas que nos cortam.

Tudo o que ficou por dizer
porque a tristeza apertou tanto a garganta
que nenhum som saía
nem o olhar continha
em desespero
uma lágrima ainda assim contida.

Tudo o que ficou por dizer
porque o tempo urgente
se esvaía
e de repente já não estava
no lugar a quem havia que o dizer
quem ainda há pouco nos ouvia.

Tudo o que ficou por dizer
e tudo
o que ficou por dizer
ou tudo
sempre
por dizer.



bernardo pinto de almeida


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Um senhor de azul
e de barba por fazer. Aproveita
a época baixa, o desdém
de algum jovem desiludido
para tentar, uma vez mais, o amor.
Passeia sem ninguém a acompanhá-lo.
Dorme pouco. Não teve nada e agora,
na cidade, basta estender a mão:
os livros estão todos, corpos sempre
aguardam nesse bar conhecido.
Basta passar a porta que o faça feliz.
Por isso ano atrás de ano se veste
de azul, descuída o seu aspecto, fuma,
e regressa na época baixa
ao lugar afastado. Tal como está.
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José Ángel Cillernelo

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fotografia daqui

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31 de Janeiro de 2012

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no princípio,
uma claridade extrema permeava
todo o universo numa
explosão de luz
antes da qual
não existia
"antes" nem "depois"
a partir desse
esplendor
o contínuo espaço-tempo
constituído de uma massa
homogénea de partículas
elementares, transbordou
depois...
depois
era
o
caos
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fotografia c.
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25 de Janeiro de 2012

teus dedos de noite açucarada

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quando, daqui a umas horas a manhã vier, branca e fina,
saberei eu andar?
conseguirei eu, lembrar-me, de como se põe um pé à frente
do outro? sem cair...


al berto, in à procura do vento num jardim d'agosto
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queria desenhar uma porta nas paredes desta real
idade surda,
encontrar a chave
e sair
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22 de Janeiro de 2012

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mas... os erros quando são incógnitos não são erros.
incógnitos somos nós aos olhos do outro
e nós não fomos um erro
fomos acaso
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fotografia - giovanni tilotta
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16 de Janeiro de 2012

o infinito

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o que é o que a razão não consegue alcançar?

e eu tocava dois séculos de violoncelo por existência.

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há resposta para o que não conseguimos tocar ou ver.
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fotografia daqui
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15 de Janeiro de 2012

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Depois de tudo, fica a lembrança dos lugares e
dos seus nomes; dos quartos virados a poente
onde as imagens do rio nunca se repetem nas janelas
e todos os enredos são consentidos sobre as camas.

Ao fundo, havia um armário de madeira com espelho
onde as nossas roupas trocavam de perfume
para que os dias se vestissem sempre melhor.
E, sobre a cômoda, num espelho mais antigo,
a tarde reflectia algumas das alegrias da infância.

Não era o quarto de nenhum de nós,
mas a ele regressávamos sempre com a pressa
de quem anseia os cheiros quentes e antigos
da casa conhecida; como quem espera ser aguardado.

Pressenti, porém, que não era eu quem aguardavas:
uma noite, pedi-te mais um cobertor em vez de um abraço.



Maria do Rosário Pedreira


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fotografia daqui
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30 de Dezembro de 2011

A Invenção das seis horas







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A esta hora, levantas-te de repente
Como se houvesse um sobressalto dos continentes.
A esta hora esqueces-te inteiramente
De que tens cócegas e eu começo a achar
Que os agelastas têm razão.
A esta hora, já perdemos a esperança
De ouvir as pedras ganir
E é tarde de mais para sermos de uma cordura triste.
O ar é seco e arranha como pergaminho,
O pensamento crepita de binómios,
O chá ruge e fere.
Todas as impossibilidades acorrem a esta hora
E a menor não é o teu perfume através de seda.
A esta hora, não entendemos nenhuma linguagem,
Abdicamos de qualquer mesura,
A esta hora, sabemos quão perigosa
É essa chuva incandescente que acende as cidades,
Perigosa porque se aproxima,
Perigosa porque poderíamos reconhecer,
Misturado, o próprio destino dos sonhos .
A esta hora, nunca nos conhecemos
E os nossos caminhos distorcem-se a tal ponto
Que, por este andar, não nos encontraremos nunca
E as probabilidades de não nos termos encontrado
São um fio, encerram-e numa confusão,
Num erro de memória desmantelada.
As seis horas inventam a tua ausência,
A escolha de campos, quadrantes,
confusão entre quem parte e quem fica,
Entre o que foi e o que será.


Nuno Rocha Morais



fotografia fritz lang metropolis 1927
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29 de Dezembro de 2011

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- quero saber como te encontras hoje...
- não me encontro.
- hoje, queria dizer, como estás?
- não estou.

silêncio

- a minha disposição é sempre imprecisa.
- então diz-me inprecisamente como estás hoje...
- acho que vou dar uma volta.



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8 de Dezembro de 2011

gostar, eu?


algures, onde os homens tranquilos conservaram um frio, fica o lugar. e contratam sentilenas para não serem assaltados. e aqui entram, de novo, os guarda-nocturnos. os que me desviaram o acordeonista...
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bebo glen (no meio a virtude e a [fid]elidade àquilo que sou, finjo não ser) dick
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"e de tudo os espelhos são a invenção mais impura." herberto helder

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